A MORTE CONTEMPLOU O MEU BAIRRO NA ÚLTIMA NOITE: 3 SE FORAM COM ELA

 
Ontem a morte estava com todas as vitaminas em dia e saiu disposta. Rondou o meu bairro (1) e, mesmo sem saber dos nomes que viriam a ser revelados pela minha mãe há poucos minutos (2), eu já sabia que alguma merda grande estava rolando aqui e já notei a presença da autora.
A cachorra (3) estava nervosa. Tive que abrir a porta do “quarto” (4) dela às 02h da manhã — geralmente abro apenas às 06h e alguma coisa. Ela estava inquieta e parecia saber que eu estava com um baita frio na espinha tendo que levantar de madrugada, cruzar o pátio escuro e abrir a porta do quarto dela.
A gata dormia tranquila, um sinal de que a morte não estava visitando ninguém da minha família.
Voltemos à nota de pesar. Entendo que o costume de toda nota de pesar é expressar dor pela partida de alguém que seja, no mínimo, querido. Não tinha uma relação profunda com essas três pessoas, mas as três participaram da paisagem da minha biografia de modo ilustrativo.
O Roberto morava aqui perto da minha casa; nos anos 90, jogava truco e dominó com o meu pai. É truco, seis... ladrão!! (5). Um negro alto e forte, sempre de bom humor. Conheci o filho dele em alguma ocasião. A causa mortis teria sido a cachaça. E aqui vai o meu pesar: saber que ele poderia ter abandonado o ringue de uma luta perdida. Parece que a vida dele não tinha mais sentido sem essa peleia. Aceitou o desafio e foi brigar com a cachaça, mesmo sabendo que a sua treinadora técnica era a morte e que geralmente a luta acabava num round distante e cansativo, já sem plateia. Vá em paz, Roberto! Resistiu bem! Descanse em paz!
Sobre o filho do “ceguinho” — assim o chamavam —, o conheci, estive com ele quando era bem pequeno. Morreu aos 20 anos o filho do meu colega de escola, Reginaldo. Circunstâncias estranhas, lá em São Paulo. Eles também moravam perto da minha casa, assim como o Roberto, a menos de 100 metros.
Já o idoso que foi assassinado, este não conheci de trocar ideias; conheci de vista. Morava em frente à minha casa quando morei num apartamento em outro bairro. Ele estava sempre ouvindo música antiga num "rádio" com entrada pra pendrive. As músicas eram do gênero brega dos anos 1970. O seu filho era viciado. De vez em quando eu dava latinhas vazias para ele vender, ou algum cigarro quando ele me parava na rua antes de eu abrir o portão da minha casa. Relação de boa vizinhança sempre com o vizinho viciado que matou o pai nesta madrugada, o velho pacato fã de brega antigo.
Apenas uma vez tive problema com esse jovem viciado e, agora, assassino: quando me gritou da rua pedindo um trocado. Meu pesar é pelo velho e vem acompanhado do desejo de que esse rapaz seja retirado de circulação pelas forças competentes do Estado, que lhe direcionarão a lei e, quem sabe, tratamento ao mortal vício.
A morte no frio chega com um silêncio que a faz parecer mais mortal ainda.
"O maestro", da série Viagem pelo Fantástico, de Boris Kossoy.

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  1. Bairro Centro de São Sebastião DF Brasil.

  2. Via WhatsApp.

  3. Não chamo de cadela, não. Me acostumei com cachorra mesmo.

  4. Um galpão que serve de lavanderia e quarto dela. Pela noite fecho a porta para ela não receber corrente de ar, já que aos 13 anos e meio de idade isso pode ser fatal facilitando resfriados.

  5. Frases vindas da mesa de truco na calçada de uma Rua da Gameleira lá pelo ano 1996.

AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas sobre notícias e temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história — o que, claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a instigar AQUI estranhamentoS. Historiador e professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando em Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: Instagram @darioandrespouso

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