Os cavalos ocultos da Senhora Infiel
Ele era um bom mecânico que me atendia, e no máximo um mecânico de tinha se tornado "brother" de farra, só. E como naqueles tempos (um par de anos atrás, no máximo) eu ainda tomava uns goles, nós saíamos por aí para festejar a vida.
O conheci quando fui verificar a lona de freio do meu carro, após ter evitado a ultrapassagem de um babaquinha que cismou comigo no trânsito, não vi que estava com o freio de mão puxado. O tal mecânico desconfiou do porquê de eu ter esquecido o freio de mão puxado, e num tom que apenas os confrades entoam, demonstrando entender o que havia se passado comigo, resolveu o problema em questão e descobriu outros que os mecânicos anteriores (incompetentes com "I" bem macho) não suspeitaram.
O pobre rapaz devia estar com problemas, ele não ligava nunca, mas naquela tarde ligou.
“Opa, fala companheiro, diga."
"Ah, desculpa ligar cara mas aconteceu uma coisa muito escrota”.
Bom, resumindo: ele descobriu que a mulher que estava saindo com ele (ou ele com ela) era esposa de um conhecido meu e que o marido queria se matar.
Fiquei em choque porque não esperava isso da tal mulher, nem muito menos a reação desproporcional do sujeitinho que era marido dela.
“Ok, não posso falar agora, passa lá em casa tal hora e me conta”.
A história dele batia, a mulher era mesmo a esposa do meu “conhecido”.
Um conhecido insuportável, como aquelas notícias de filho que agride a própria mãe. Mas isso não o torna merecedor de um belo par de guampas na testa. Chifre é coisa feia de se ver e de se viver. Se já tomei algum? Claro! E até hoje aqui, observando de longe e aguardando as fofocas, de camarote, fofocas sobre a chegada da fatura da lei do retorno para a dita cuja. Bom, mas esse não é o tema.
O Chato da Silva que aqui será chamado de H, que costumava discutir com a esposa sobre a disposição das panelas, não bastava lavar a louça (eu aprendi a lavar a louça, serve para meditar), ele tinha que discutir as cores das próximas panelas mesmo quando a própria esposa não dava a mínima para as novas louças em promoção. Também não dava a mínima para os repentinos choros do marido.
H ultimamente estava dando pra chorar sem motivo aparente. Imagino que o choro não chocava tanto a esposa, mas os soluços.
Meu então parceiro de farras e testemunha ocular de alguns eventos históricos voltados para o festejo da vida (que me incluíam com certo protagonismo) e, portanto, tínhamos intimidade para comentar esses tipos de eventos de ordem íntima, me contou a história do soluço, o que me deixou com certa vergonha alheia e me fez abastecer os copos de cerveja da mesa de centro.
O tal H não ligava em ser corneado, até fingia e facilitava as coisas para a esposa, ficava mais tempo no Supermercado comprando alguma carne de pato, tomate defumado ou balas com sabor de café, e nisso se atrasava em chegar em casa (num condomínio perto da "Adega") e não via ou percebia que a mulher chegava atrasada com o cabelo molhado e com cheiro de xampu que não era de nenhum dos banheiros da casa deles.
O H começou a ficar triste dias após ter lido uma reportagem sobre cavalos ocultos.
Uma das tantas revistas de carros que ele colecionava trazia a reportagem maldita: os carros saíam de fábrica com cavalos ocultos e apenas certos mecânicos bem versados na arte de liberar tais cavalos podiam meter a mão no motor sem dar problema. Mecânicos que sabiam como chipar carros. Chipar carros: a arte de liberar cavalos ocultos.
Numa das tantas brigas que ocorriam por temas relacionados à decoração da casa, a mulher foi clara como cópula de gatos no telhado de mafrugada: estou saindo com o meu mecânico porque ele liberou meus cavalos ocultos. Ele contava pra ela sobre o que lia, típico de homem que acha que a esposa vai se interessar por tudo o que ele faz ou gosta. Ela usou a metáfora dos cavalos pra contar a verdade, imagine só a perversidade dessa senhora medonha. Por outro lado ela deve ter tido os motivos dela, imagino o quanto a fraqueza do cônjuge a sufocava.
Reparem na gravidade da situação: ela não apenas disse que estava traindo o pobre diabo, ela disse com todas as letras: estou sendo chipada (apontando para o centro equidistante entre as virilhas) bem aqui ó, tá vendo, aqui ó.
Para H, ser traído fazia parte, mas o mecânico ser o primeiro a sentir a força dos cavalos ocultos da esposa, ah isso era inaceitável. “Você não usa nem metade dos pôneis que eu te ofereço, agora quer montar em cavalos ocultos? Vá se ferrar corno” Era o fim.
Ele ameaçou ingerir inseticida, como muitos farsantes, chamou a atenção com a ameaça de dar cabo da própria vida. O que fiz? Meu conselho pro mecânico (o rapaz que me ligou era o mecânico): “tenha paciência com o H, isso é só um protesto, pega leve e não faça o motor roncar alto sem necessidade. Não seja exibicionista, pega mal."
Fico pensando se essa história é representativa do que há milênios se entende por universo feminino e masculino. Fico pensando até que ponto a tolerância com os “H" é possível por parte de gente como a esposa do infeliz enganado. Até que ponto as mulheres manifestam ímpetos de manter relações profundas com esses rapazes. Me refiro a ímpeto porque a ideia de impulso é a mais fiel à naturalidade das ações que brotam do coração e não dos discursos bonitinhos de aceitação irrestrita às diferenças. Naturalmente, e sem discurso bonitinho, o ímpeto que prevalece estatisticamente é favorável à metáfora equina?

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