HISTÓRIA DA VOZ: DA CONJURAÇÃO INVIOLÁVEL AOS ÁUDIOS NO WHATSAPP
Segue o texto:
Em algum momento da história, a voz deixou de ser sagrada, separada e inviolável. Foi profanada pela "conversa para boi dormir" de cada dia.
Emitíamos sons que podiam alterar a realidade: amedrontando outros humanos, outros animais, invocando gente, bichos e sombras. Conjurávamos o bem, a morte, o ódio, o gozo e a dor — tudo aquilo da vida que fosse imediatamente grave, importante e urgente.
Éramos assim naquela época, naquele... antigamente bem antigo mesmo. Refiro-me à reta final do Paleolítico, uns cinquenta mil anos atrás, até aquela etapa do início do Neolítico, quando os indo-europeus separaram-se para povoar o sudeste da Ásia e a Europa, onde foram erguer Civilizações Universais: por volta de 50.000 ATÉ aproximadamente 5.000 anos atrás.
Já não era o grito, o murmúrio, o assobio; era a linguagem com símbolos e signos cada vez mais complexos hospedados no som, som parido pelas cordas vocais educando a língua.
A língua, essa flauta do sopro da vida que nos cabe tocar, tornou-se então fofoqueira. Cada vez menos sagrada, cada vez menos divina, cada vez mais MORTAL.
