HISTÓRIA DA VOZ: DA CONJURAÇÃO INVIOLÁVEL AOS ÁUDIOS NO WHATSAPP

Meditando sobre a arte FICAR OFF LINE em alguns momentos do dia e em alguns dias da semana (como neste feriado, semana Santa / 2026), sobretudo no WhatsApp, me ocorreu compartilhar aqui uma nota publicada em 2023, no blog anterior a este.
Segue o texto:
Em algum momento da história, a voz deixou de ser sagrada, separada e inviolável. Foi profanada pela "conversa para boi dormir" de cada dia.
Emitíamos sons que podiam alterar a realidade: amedrontando outros humanos, outros animais, invocando gente, bichos e sombras. Conjurávamos o bem, a morte, o ódio, o gozo e a dor — tudo aquilo da vida que fosse imediatamente grave, importante e urgente.
Éramos assim naquela época, naquele... antigamente bem antigo mesmo. Refiro-me à reta final do Paleolítico, uns cinquenta mil anos atrás, até aquela etapa do início do Neolítico, quando os indo-europeus separaram-se para povoar o sudeste da Ásia e a Europa, onde foram erguer Civilizações Universais: por volta de 50.000 ATÉ aproximadamente 5.000 anos atrás.
Já não era o grito, o murmúrio, o assobio; era a linguagem com símbolos e signos cada vez mais complexos hospedados no som, som parido pelas cordas vocais educando a língua.
A língua, essa flauta do sopro da vida que nos cabe tocar, tornou-se uma fonte de discórdia. Cada vez menos sagrada, cada vez menos divina, cada vez mais MORTAL.
AUTOR
Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas e/ou provocações literárias sobre temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história, o que claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a meditar. Professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e doutorando em Artes Visuais.
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