Arte, estética, lavar a louça e cozinhar

 Foi um cozinheiro quem iniciou Dōgen na prática budista que se tornaria a vertente Zazen, quando o jovem japonês Dōgen foi para a China em busca de um novo budismo e de um mestre. Eu não encontrei o nome do Cozinheiro Mestre / Mestre Cozinheiro, e me parece que está bem assim, imortalizado sem nome.

Dōgen levou na bagagem os elementos para um budismo simples e transcendental. A sua bagagem mais valiosa viajava com ele no coração, na mudança interior. Aplicou isso no Japão. A revolução estava no ato de sentar, apenas sentar. O próprio Buda se sentava e deve ter encontrado a sua iluminação sentado; onde reside, então, o aspecto revolucionário do budismo de Eihei Dōgen?

Na não intenção!


Sentar e respirar, apenas isso, sem outras pretensões. Não desejar a iluminação, não querer nada além de estar presente na companhia consciente da própria respiração.


Volto ao cozinheiro. O morador do mosteiro, que está cozinhando enquanto os demais monges meditam, não medita? O ato de cozinhar já é uma forma de meditar, segundo o mestre Dōgen. Imagino que lavar a louça, ir ao supermercado, voltar do supermercado e tantas outras atividades em torno da comida integram essa prática da presença plena no aqui e no agora.


As Instruções para o Tenzo (cozinheiro) — Tenzo Kyōkun, escritas por volta do ano 1237 — além de abrirem um portal para a compreensão sobre a simplicidade da prática espiritual do Zazen ( sentar e meditar -o budismo mais simples que tantos adeptos no Ocidente têm tentado praticar no último século), encontram consequências éticas, estéticas e filosóficas que vão do minimalismo no ritual do chá às decorações nos lares mais recônditos do planeta que se permitem querer ser algo... "zen".


quinze de abril de 2026, uma quarta-feira

AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas e/ou provocações literárias sobre temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história, o que claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a meditar. Professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e doutorando em Artes Visuais.

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