A literatura como renovação e cura...ou... faces literárias da meditação

 Segundo Georges Simenon, lemos para espiar pelo buraco da fechadura, para vermos como o escritor resolve questões que não sabemos por onde começar (entrevista de 1955, Paris Review). Lemos para especular respostas através dos personagens “alheios”. E os personagens alheios, de um escritor que já morreu — ou que, se vivo, jamais te conhecerá —, não são tão alheios assim: são da humanidade; correspondem ao repertório das atitudes e dramas possíveis nesta terra.

A literatura, penso, me liberta de mim mesmo na medida em que eu não teria como me sentir desamparado (frente a algum “precipício” do destino) ao já ter internalizado bem situação similar cantada pelos aedos e rapsodos que me gritaram em alguma biblioteca.


Posso não ter estado numa guerra, disse Borges, mas vivenciei outros perigos (terrores?), (entrevista de 1976):


[00:36:30] Borges: — ...porque, si no, uno se perdería en una selva de nombres propios. Además, ¿qué importancia tiene si el libro ha sido escrito por uno o por otro? Lo importante es el libro, es el lenguaje.


Entrevistador: — El hecho de haberse dedicado usted casi exclusivamente al mundo de la ficción, ¿no le ha impedido observar otros mundos?


Borges: — Pero, ¿hay otros mundos? Yo creo que no. Yo creo que mi vida ha sido... bueno, yo he conocido pocas cosas. Yo no he conocido la guerra, no he conocido la batalla, al revés de mis mayores. Mi experiencia de peligro ha sido que el avión en que yo viajaba pudiera caerse…


Pela fechadura, os personagens em Otelo, ou quem sabe o Bentinho e a Capitu do nosso gigante Machado de Assis, possuem a potência necessária para, por exemplo (apenas pra visualização da gravidade da coisa), diminuir os feminicídios num país tão violento com as mulheres como este nosso. O repertório de homens e mulheres é finito, cabe no planeta, pode ser internalizado.


O velho Northrop Frye conseguiu sintetizar essas ideias de Borges e Simenon do modo dele, no tempo dele. Lá no Canadá, ele deu algumas palestras (via rádio) sobre o que chamou de "A Imaginação Educada". 


Podemos tranquilamente educar a nossa imaginação nesse repertório humano condensado na literatura. Entender a grandiosidade disso é ESTENDER as consequências da literatura na prevenção da desgraça cotidiana.


Criminosos, em sua grande maioria, são indivíduos sem outro repertório que não o do crime. Os escassos arquétipos de indivíduos desses são claros e entendíveis aos confrades de presídio ou pré-presídio. Eles se entendem entre si, mas não entendem outros enredos. Quem sabe por isso adorem destruir outras histórias e seus portadores.


Não são poucas as iniciativas de estender a literatura ao universo dos criminosos cumprindo penas no Brasil. O exemplo extremo do crime ilustra também o cotidiano menos sangrento, mas não menos dramático: ansiedades… 


Não sou eu que o digo — e se o dissesse por mim, eu teria que avisar que estou falando apenas por mim. Na verdade, falo um pouco por mim também, só um pouquinho. Nesta nota para o blog, deixo falar o historiador que reside em mim, neste caso concreto da relação entre cura e literatura. Resgato uma mensagem escrita na entrada da Biblioteca de Tebas, construída nos dias do faraó Ramsés II: ψῡχῆς ἰατρεῖον.


Treze séculos antes de Cristo, os egípcios já imaginavam que boa parte das doenças e demais males da vida poderiam ser espirituais. A tradução aproximada de ψῡχῆς ἰατρεῖον é LOCAL DE CURA DA ALMA.


Estas linhas não devem ser interpretadas como uma apologia simplista da cura através do livro de modo mágico e imediato. 


Refletindo sobre a possível relação entre o livro físico e a meditação, iniciei um rascunho de outro texto que eventualmente será publicado aqui. Acabei esbarrando em Borges, na fechadura de Simenon e no Egito Antigo. 


E, justamente por estar inclinado a crer que o livro físico estará cada vez mais, nos próximos anos e décadas, atrelado a um ato sagrado / meditativo, penso que a postura de quem busca a literatura com paciência para observar pela fechadura sem julgar, apropriando-se do enredo, é a postura de quem tem os elementos essenciais para a transformação profunda do que precisa ser reparado.


Estou tentado a crer que ainda a leitura digital não está adaptada à postura meditativa; o livro físico sempre esteve. Eu disse "ainda". Como a leitura digital habita o ainda não (nessa questão específica), então foquemos no livro físico. O equilíbrio, a absorção do repertório humano, a internalização e a transformação devem vir com a meditação.


Pensemos na colossal imagem da renovação/cura/renascimento: Shiva (o destruidor do mundo, pai da renovação, do equilíbrio, da yoga).

A filosofia védico-hindu o descreve meditando, em pausa, focado no agora. Dando o exemplo de ser apenas um gestor no mundo físico, gestor de peso é verdade, mas ainda assim gestor apenas (de Brahma) que pretende sentir Krishna (a transcendência infinita). |O próprio Shiva quer manter-se curado do ego que emana de Brahma, da tentação do ego da sua função de reconstrutor do mundo (que é finito e acabará). As entrelinhas da história das ideias são sugestivas neste ponto: não é o livro, mas a postura perante ele, o que se faz com ele, o tempo dedicado a ele, a abertura frente a ele.


Por isso que, apesar de serem diversos os registros de sistemas judiciários que adotaram a literatura na remição da pena, proporcionalmente são ínfimos os detentos que morderam a isca. Sem a faísca meditativa, o livro é no máximo a casa do mofo, alimento de ratos.



Brasília, domingo 5 de abril de 2026


AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas e/ou provocações literárias sobre temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história, o que claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a meditar. Professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e doutorando em Artes Visuais.

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