Arqueologia da traição na América Latina: tentando escutar Malinche.
Hoje é quinta, 2 de abril de 2026, e cá pensando em como digerimos os feitos dos "delatores" (premiados!). Impossível não pensar em Malinche e nas raízes de meio milênio de mudanças de lado.
Seria possível pensar a historiografia latino-americana através das categorias em torno da traição?
Devemos ouvir os traidores na história do continente? Conseguimos ouvi-los? Como construímos as narrativas dos Judas da Idade Moderna / Contemporânea na América Latina?
COLABORACIONISTA
TRAIDOR
X-9
DEDO DURO
CAGUETA CAGUETE
APÓSTATA
SOPLÓN
VENDIDO
DESERTOR
Ah, Malinche! O que você foi fazer com o México, Malinche? Abaixo algumas linhas que escrevi meia década atrás:
Malinche e Hernán Cortés
Os primeiros filhos do que se tornaria a América Latina brotaram da união dos nativos com os ibéricos. A América Mestiça nasceu naqueles dias em que os espanhóis arriscaram-se no oceano desconhecido e encontraram-se com pessoas em locais distantes, há semanas de viagem de suas casas.
Não sabemos qual foi o primeiro casal formado por nativos e espanhóis a gerar o primeiro mestiço da América Latina, mas sabemos sobre um dos primeiros casais famosos por gerarem um dos primeiros mestiços do continente. Me refiro a Hernán Cortés e à sua companheira Marina, mais conhecida como Malinche ou Malinalli. Malinche era uma nativa da região conhecida hoje como Tabasco. Foi vendida como escrava por sua mãe após a morte do seu pai.
Cortés havia deixado a Espanha sonhando alto, apostando suas fichas na América para subir na vida, fez uma pausa nas ilhas de Cuba e Dominicana, só que por lá acabou se desentendendo com outro conquistador espanhol, Diego Velázquez.
Ao romper com Velázquez, foi em direção ao continente habitado por astecas e maias, onde hoje fica o México. É compreensível esse rompimento, se observarmos as motivações daqueles aventureiros espanhóis dispostos a tudo para fazer fortuna no Novo Mundo.
Nessa incursão histórica em meio a astecas e maias, Cortés foi com tudo pra cima dos indígenas, e na dura 27 Batalha de Centla, no dia 15 de março de 1519, dizimaram os maya-chontales.
Os embaixadores do cacique maia vencido, conhecido como Tabscoob, “nosso senhor dos oito pumas”, levaram presentes aos vencedores espanhóis. Entre joias, artesanato e comida estavam 20 escravas oferecidas em reconhecimento aos vencedores. Era costume local reconhecer a derrota enviando presentes. Entre essas 20 moças estava Malinalli, eternizada pela história como Malinche.
Vencido o senhor dos oito pumas, o Conquistador / Invasor se dirigiu rumo à conquista do povo asteca e da sua capital Tenochtitlán, atual Cidade do México. No caminho de Tenochtitlán parou em Cholula, e lá quase foi morto.
Os nativos mexicanos tinham seus problemas internos antes da chegada dos espanhóis. Este é um ponto que merece atenção especial quando se estuda a história da América. É justamente em tais conflitos internos que estão não poucas luzes que iluminam diversos processos que se seguiram à Conquista / Invasão.
Naqueles dias existiam dois modelos políticos rivais, vários povos reuniam-se em torno de Tlaxcala num modelo de confederação regional, e outros povos estavam submetidos ao império de Tenochtitlan.
As especificidades dos interesses locais levavam os caciques a barganhar com Cortés e com os caciques mais poderosos da época. Assim, Cortés chegou em Cholula, num momento de vários interesses cruzados e de muita indefinição.
O espanhol estava acompanhado de aproximadamente 1500 nativos totonacas, 400 infantes espanhóis e mais ou menos uma dúzia de cavalos.
Na noite em que acampava em Cholula, a esposa do cacique de Cholula, Quetzalcoatzin, conhecida pela história como “Doña Maria”, avisou Malinche de um plano para assassinar Cortés e seu bando. Ofereceu à Malinche sua casa.
Quando amanheceu, Cortés matou todos os cholulas que encontrou pela frente, impondo a didática do medo aqui no Novo Mundo. A chacina que, na perspectiva ibérica, deveria servir de exemplo para os povos que não se submetessem.
Em 1521 veio a conquista de Tenochtitlan, o império governado pelo lendário Montezuma. Malinche era sua intérprete e embaixadora acompanhando Cortés em suas incursões.
Hoje, no México, Malinche ainda é sinônimo de “judas”, traidora. Isso provavelmente resulta de um simplismo histórico comum na história da América Latina, a busca por um traidor e uma explicação fácil para entender o porquê dos europeus terem “vencido”.
Há quem conte a história inclinando-se a ouvir as eventuais razões de Malinche. Quem sabe, reitero, quem sabe, a embaixadora e mulher de Cortés não tivesse feito nada diferente do que uma mulher daquela época com seu contexto social, cultural e político também faria.
Não esqueçamos que das matanças de Cholula e Tenochtitlan também participaram decisivamente índios inconformados com a situação política local.
Malinche serviu como boi de piranha / bode expiatório para esconder uma história muito mais complexa e interessante daquela história pátria ensinada nas escolas.
Malinche teve um filho com Cortés, um filho batizado como Martín, o mesmo nome do pai do avô espanhol.
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Escrito no início da pandemia, outono / 2020.