ANTROPOFAGIA TUPI
Comer gente não era algo "do outro mundo" para os índios do Brasil nos séculos XVI e XVII. Aos poucos, os jesuítas colocaram um ponto final nisso. As fontes indicam terem sido estes hábitos manifestações diretas da visão de mundo dos nativos: tratava-se da apropriação das forças espirituais dos inimigos, mas não apenas isso. Queriam se vingar. A vingança consta nos relatos da época como uma ocupação primordial da vida; era preciso se vingar das tribos rivais porque sempre haveria um motivo, um inimigo ainda vivo.
O padre Anchieta relata uma curiosa cena na qual um guerreiro capturado provoca seus carrascos antes de morrer: “Mata-me! Tens muito que te vingar de mim! Comi teu pai. Comi teu filho. E meus irmãos vão me vingar e comer vocês todos!”. Viajantes, aventureiros, corsários e religiosos da época — como Hans Staden, Jean de Léry e os padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega — foram testemunhas importantes, historiando suas andanças nos caminhos da antropofagia.
Os índios acreditavam absorver os espíritos dos inimigos ao comê-los, adquirindo assim maior força e fama. A fama era dada pelo número de apelidos obtidos; cada apelido era o nome de um guerreiro vencido. O cacique Cunhambebe, por exemplo, tinha mais de 60 apelidos. Mulheres e crianças participavam do banquete com os homens. Das vísceras, elaboravam o famoso mingau e, por dias, dedicavam-se às festas. Nos relatos, constam inclusive mães oferecendo aos filhos pequenos os seus seios besuntados no sangue dos guerreiros mortos.
É de se notar a receptividade desses relatos pela intelectualidade brasileira na década de 1920. Os modernistas valeram-se da antropofagia para ressignificar o que era ser brasileiro e o que era a arte em si. O Manifesto Antropofágico homenageava os ritos Tupinambás, adequando-os ao clima de renovação cultural: queria "devorar" e digerir as influências estrangeiras para, assim, recriar a realidade nacional.
Oswald de Andrade assinou o Manifesto no “ano 374 da deglutição do Bispo Sardinha”. O Bispo Sardinha e outros 90 portugueses teriam naufragado no litoral nordestino em 1556, sendo recepcionados na praia por índios que, ansiosos e com "água na boca", os esperavam.