Espanholas encomendadas ao Rio da Prata: Expedição Sanábria, século XVI

 


Os espanhóis estavam preocupados com os colonizadores enviados ao Paraguai no século XVI. Chegavam informações, fofocas e boatos sobre a miscigenação longe de casa — longe do controle da Igreja.

Os europeus enviados ao Novo Mundo estavam namorando as índias e, com isso, misturando o sangue espanhol e católico com o de selvagens pagãs. Surgiu, então, a ideia de enviar donzelas espanholas para casar com os espanhóis lá no Paraguai, para que assim constituíssem famílias e detivessem o avanço dos bandeirantes portugueses.

A expedição Sanábria saiu da Espanha em 1550, levando cerca de 50 mulheres aos cuidados da viúva de Sanábria, Dona Mencia de Calderón Ocampo. Saíram em abril; dois meses depois, já haviam enfrentado tempestades e o assédio de piratas franceses normandos. Apesar de a expedição contar com muitos homens, quem salvou as donzelas dos franceses foi Dona Mencia, determinada a cumprir a missão confiada ao seu falecido marido. Ela negociou com os piratas, ofereceu mantimentos e objetos de valor em troca de poder seguir viagem tranquilamente.

No mês de dezembro, estavam em Santa Catarina, no ponto de encontro das três naus que partiram da Espanha em abril. A nau Assunção afundou tentando atracar nas praias catarinenses. A nau São João jamais foi encontrada. A nau de Dona Mencia, a São Miguel, não afundou, mas ficou muito danificada ao tentar atracar.

Assim, permaneceram dois anos em Santa Catarina, enviando mensageiros ao Paraguai e à Argentina pedindo socorro. Em vão; o socorro nunca chegava. Consertaram o que havia sobrado da nau São Miguel e foram até o litoral de São Vicente, São Paulo, na tentativa de conseguirem uma embarcação maior para levar a todos.

Naufragaram perto de Itanhaém. Ali em São Vicente, o icônico passageiro alemão, cronista, mercenário e aventureiro Hans Staden larga seus colegas e é capturado pelos Tupinambás. O grupo de Dona Mencia é feito prisioneiro pelo governador Tomé de Souza e, somente em 1554, quando o novo governador Duarte da Costa substituiu Tomé de Souza, as espanholas puderam seguir viagem.

Essa prisão é explicada pelas disputas entre espanhóis e portugueses na colonização da América. Se considerarmos que a missão de Dona Mencia era a de levar mulheres para fortalecer as posses espanholas no sul contra a aproximação portuguesa, entenderemos que os portugueses as viram como potenciais inimigas. Temiam que elas fizessem fofoca ao seu rei quando soubessem que os bandeirantes estavam indo para o sul capturar índios colonizados pelos espanhóis.

Mas, graças à flexibilidade de Duarte da Costa, elas finalmente seguiram viagem. Voltaram novamente para Santa Catarina. Não podiam esperar mais uma ajuda que nunca vinha, por isso decidiram ir caminhando para o Paraguai. Se perguntarmos ao Google Mapas a distância entre o Porto de São Francisco e Assunção, veremos que a caminhada delas foi de aproximadamente 1.300 quilômetros. Chegaram a Assunção em 1556, seis anos após terem deixado a Espanha. É verdade que algumas casaram no meio do caminho, mas a maioria chegou saudável e solteira.

Mencia interpretada por Ingrid Rubio na série (2014)  El Corazón del Océano

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escrito em julho/2020

AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas e/ou provocações literárias sobre temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história, o que claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a meditar. Professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: insta @darioandrespouso

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