Civilização Adaptada e o "Brasil diarréia" de Hélio Oiticica
Nos adaptamos a quase tudo. A história nos ensinou a ouvir a música e dançar conforme ela. Ou me equivoco nisso?
Tivemos um processo histórico sangrento, onde o poder econômico e da hereditariedade "nobre" se impôs. Nossos antepassados aprenderam o que levava um mortal à forca e o que o salvava. Nossa criatividade para a sobrevivência gerou uma contrapartida indigesta, a da imitação. Imitamos as agendas do exterior com extrema facilidade. Entramos na "modernidade" artística reconhecendo isso. O nosso movimento antropofágico utilizou esse nosso costume de apreciar os costumes estrangeiros. Claro que os antropofagistas da Semana de Arte Moderna de 22 queriam não apenas comer, mas digerir e adequar o externo ao interno. O Hélio Oiticica, pouco antes de morrer, em 1980, escreveu em seu texto "Brasil diarreia" que em sua opinião, não houve “deglutição”; o que nos sobrou foi só diarreia: “A formação brasileira, reconheça-se, é de uma falta de caráter incrível: diarreica; quem quiser construir tem que ver isso e dissecar as tripas dessa diarreia – mergulhar na merda”.
Certamente nos dias atuais Oiticica seria cancelado pela patrulha do bem. Mas, poderia um artista da estirpe de Oiticica dar bola para cancelamentos? Creio que não.
Aonde quero chegar? Que o nosso recente hábito de bons moços que não falam palavrão em público é uma BOSTA (assim, com maiúsculas).
É preciso diferenciar o palavrão ofensivo à dignidade do próximo do palavrão espontâneo que nos brota no cotidiano.
Pense comigo na última vez em que você meteu o dedinho do pé na "quina" do sofá. Agora pense em alguém próximo que tenha passado pela mesma situação tendo você como testemunha. Qual foi a primeira palavra gritada (ou por você, ou pela pessoa que imaginou) quando a dor foi comunicada via sinapses ao cérebro em frações de segundo? Pense. Bom, buc*ta e porra...certo?
Dei um exemplo extremo, é verdade, mas se fizermos uma gradação das situações que liberam os nossos ímpetos e inclinações ao palavrão no cotidiano, chegaremos à conclusão de que eles não podem jamais ofender a dignidade do próximo, a não ser assustar um pouco.
Estou acompanhando os noticiários argentinos nestes dias que seguiram à vitória de Javier Milei, o cara que repetiu "viva la libertad, carajo". Não vi nem o Alejandro Dolina (radio am 750 Buenos Aires), nem o Jorge Lanata (Radio Mitre e jornal Página 12), nem a negra Vernacci (rádio pop), nem o lendário Victor Hugo Morales (um dos sujeitos mais cultos da Argentina, o uruguaio que narrou o melhor gol do Maradona na copa de 1986, tem um programa matinal na mesma rádio do Dolina e fez um minuto de silêncio na segunda-feira, no primeiro programa após a vitória do Milei), nem a socialite conservadora Mirta Legrand demonstrarem surpresa. Vi, sim, nos meios de comunicação daqui várias matérias tentando entender essa expressão do Milei.
Quem poderia se sentir ofendido com a frase do Milei? Ninguém! Agora, se ele tivesse direcionado o termo carajo a setor ou indivíduo, tal setor ou indivíduo poderia imaginar um "carajo" específico invadindo o seu ser. O "carajo" em questão é genérico, assim como a "buc*ta" imaginária que sai da boca de quem fode o dedinho do pé no sofá.
Não é o seu nem o meu "carajo", nem a sua e nem a b*ceta da sua mãe. Trata-se de b*ceta e "carajo" genérico, trata-se do mundo das ideias, de algo que faz parte de nós e, POR ISSO, PENSAMOS NISSO!!
Citação do Oiticica ver Brasil Diarreia. In Arte Brasileira Contemporânea. Caderno de Textos 1: O Moderno e o Contemporâneo (o novo e o outro novo). Rio de Janeiro: Funarte, 1980, p. 26-27.
escrito dias após a eleição do Milei