O outro Jesus

 


Sabemos da narrativa da crucificação e as implicações imediatas desse evento na formação religiosa ocidental. Os eventos seguintes, que ocorreram após a crucificação, carregam uma certa carga de mistério quando entramos em contato com relatos e versões de pouco conhecimento do público em geral -relatos que não chegam a duvidar da crucificação, mas de quanto tempo Jesus permaneceu nela. Jesus teria ficado tempo suficiente na cruz para morrer nela? Existem algumas leituras tidas como evidências para responder a essa questão. Tais leituras abordam certos detalhes dando-lhes roupagem de evidências. Passemos, então, para esses detalhes interpretativos.

Detalhe 1: a fé romana Os romanos eram crentes, este ponto deve ficar claro. Os romanos eram crentes porque acreditavam em deuses. Eles tinham uma larga formação religiosa que ia: do culto aos deuses privados (da família, os famosos lares, antepassados da família que protegiam a casa) aos cultos públicos (dos deuses do Estado). Então, podemos perceber que os romanos tinham uma sólida formação no universo da fé composta por duas camadas, a fé privada e a fé pública. Nada como um romano da Idade Antiga para compreender o que era ser um crente. Nossas lareiras atuais são heranças desses romanos, que, se aqui conosco pudessem estar, iriam aproveitá-las para enchê-las de fotos de parentes mortos.

Com tal formação, não era difícil para um romano médio reconhecer a possibilidade de existência de outros deuses. Os evangelhos relatam como Jesus ficou contente ao presenciar a fé de um romano. Diz-se que um oficial romano procurou Jesus para pedir-lhe que curasse o seu criado que sofria em cima de uma cama “paralítico e horrivelmente atormentado” (Mt 8:6). Jesus teria, então, se oferecido para ir até a casa do oficial romano e conferir o que estava acontecendo. O tal oficial teria respondido a Jesus: “Apenas dize uma palavra e meu criado será curado. Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e digo a este: vai, e ele vai; e a outro: vem, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz.” Nessa passagem do Novo Testamento, Jesus usou esse exemplo da fé romana para esfregá-lo na cara dos curiosos judeus incrédulos que o seguiam.

Detalhe 2: morte “rápida demais” A crucificação era utilizada na Idade Antiga como pena de morte. Geralmente, o crucificado resistia por dias e acabava morrendo por asfixia ou desidratação. Os evangelhos afirmam que a morte de Jesus ocorreu após 6 horas na cruz (Mc 15:25 e Mc 15:34). Os mesmos textos relatam a surpresa de Pôncio Pilatos ao saber da morte de Jesus: “Chegou José de Arimateia, o ilustre membro do Conselho, que também esperava o reino de Deus, e ousadamente foi a Pilatos, e pediu o corpo de Jesus. E Pilatos se maravilhou de que já estivesse morto. E, chamando o centurião, perguntou-lhe se já havia muito que tinha morrido” (Marcos 15:43,44).

Detalhe 3: O túmulo de Arimateia José de Arimateia era rico, tinha influência na cúpula judaica, era seguidor de Jesus e dono da tumba para onde Jesus foi levado.

Detalhe 4: O beijo de Madalena Maria Madalena, uma mulher com influência entre os apóstolos, era muito próxima a Jesus, e uma séria candidata a ter sido mais que amiga de Jesus, segundo esta linha argumentativa do outro Jesus. A história sobre a época fala de judeus vivenciarem o casamento de um modo obrigatório. Era mal visto ser judeu e não ser casado. Sendo judeu, Jesus poderia muito bem ter praticado esse aspecto de sua cultura, teria sido natural sob essa ótica.

Textos encontrados no século XX fornecem outras informações que os conhecidos Evangelhos não contemplam. O Evangelho de Filipe, texto apócrifo encontrado em Nag Hammadi, Egito, em 1945, contempla essa possibilidade. Esse texto apócrifo, sem reconhecimento por parte da Igreja, descreve um beijo que teria gerado descontentamento entre os discípulos. Abaixo estão as versões do texto, uma cópia dos trechos com a ilegibilidade causada pela ação do tempo, e outra com preenchimento do que provavelmente seriam as palavras ilegíveis pelo desgaste do tempo.

“E a companheira do [ILEGÍVEL] ia Ma [ILEGÍVEL] lena. [ILEGÍVEL] M [ILEGÍVEL] mais do que [ILEGÍVEL] os disc [ILEGÍVEL] beijá-la [ILEGÍVEL] na [ILEGÍVEL]. Os demais [ILEGÍVEL]. Eles disseram: Por que você a ama mais do que a nós?. O Salvador respondeu-lhes: por que eu não vos amo como a amo?".

“E a companheira do Salvador era Maria Madalena. Cristo amou Maria mais do que todos os discípulos, e costumava beijá-la frequentemente na boca. Os demais discípulos se ofendiam com isso e expressavam seu descontentamento. Eles disseram: por que você a ama mais do que a nós? O Salvador respondeu-lhes: por que eu não vos amo como a amo?”

Detalhe 5: França Até hoje, na região de Provença, na França, peregrinos vão prestar homenagens à Madalena na Basílica de São Maximiliano.

Resumo da teoria do outro Jesus: Como a fé dos romanos tornava difícil aceitar a ideia de matar um Deus, porque Jesus era tido no imaginário dos romanos como uma espécie de Deus, os próprios romanos teriam protegido Jesus da ira dos judeus fariseus e saduceus. Quem sabe o sonho da esposa de Pôncio Pilatos (Mt 27:19) não tenha sido um alerta ao marido nesse sentido, de não se meter com os deuses? Roma teria garantido a escolta de Jesus até as praias francesas numa viagem patrocinada por Arimateia.

escrito em algum momento do primeiro semestre de 2020

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