Feriado al Sur del Sur: nos rastros da milonga
Começo pelo quase fim, porque ainda faltam muitas horas para a conclusão do feriado[1]. A Montevidéu que eu conheci há quase 20 anos, quando morei entre dez/2007-mar/2009, ganhou uma nova camada dentro das que já possui. Em cima do tom gauchesca e europeizada, entre churrascos e massas e literatura e idiossincrasias italianas, francesas, judaicas, espanholas, portuguesas, afro-uruguaias, nova franja se impõe. Outros imigrantes, peculiares por sinal.
Nos carritos de panchos e chivitos e milanesas al pan não estão mais uruguaios, pelo menos nos que eu visitei nas proximidades da avenida 18 de Julio. Venezuelanos, cubanos, dominicanos. Me disseram há 20 anos que existiam estudos sobre a extinção do Uruguai em menos de um século. Segundo esse suposto estudo, que eu jamais procurei e nem li, os uruguaios envelheceram, não costumam ter filhos e o que restaria seria apenas uma memória cultural. Creio que esse misterioso levantamento (para mim misterioso) tem algo de profético.
O Uruguai sobreviverá graças a uma importante injeção de matriz latino-americana (“de verdade”?), gente de outras regiões que têm por tradição fazer filhos. Nesses dias que passei aqui mais de uma pessoa reclamou sobre os estrangeiros estarem tomando os postos de trabalho. A velha questão da xenofobia em sua versão latina. Que tomem! Que tomem tudo se puderem, que se recheie este país com novas tradições e estabeleça novas camadas a esta identidade que está pedindo a gritos novos elementos. Senti isso ouvindo a rádio que o taxista ouvia hoje pela manhã. Aquele vocabulário com ar portenho sem ser portenho falando do desastrado campeonato uruguaio e de tantas glórias que jamais se repetirão.
Entrei no restaurante que fica a poucos metros de onde o Che Guevara foi alvo de tiros (erraram, acertaram o professor de história de nome Arbelío que morreu na hora) durante uma palestra em 1961, em frente à Universidad de la República. Sempre vou lá. Fica na esquina entre 18 de Julio e a rua Tristán Narvaja (onde certamente existem mais livrarias do que em qualquer outra cidade). É caro, mas compensa economizar pra entrar lá e tomar um belo vinho com um caprichado pedaço de carne uruguaia e acompanhamentos.
Os garçons são da velha guarda, sabem, entendem da arte de ser garçom. Não têm nada que ver com certos profissionais inclinados a ver humilhação no milenar ofício de fazer a transição entre a vontade de comer e a arte de apresentar as delícias produzidas pela espécie humana numa cozinha. São geniais. Vale a pena. Após o meio litro de vinho e a apetitosa carne, caminhei rumo ao hotel. Na faixa de pedestres (que eles não respeitam muito por aqui) um carro buzinou forte contra um desses patinetes elétricos, que contam com faixa no meio da avenida, tal qual a nossa Avenida Paulista.
O cara do patinete fez gestos, o cara do carro continuou provocando. O problema dessas questões recai mais sobre o motorista do carro. Ele deveria calcular que ali na frente o sinal iria fechar pra ele. Fechando o sinal na rua perpendicular à 18 de Julio o cara do patinete foi tirar satisfações. Me recuso a descrever a horripilante cena que aconteceu. Eu fui atrás pra ver, achei que não ia dar em nada, mas deu.
A cidade continua cara, é difícil comer um arroz com alguma coisa, continuam predominando massas, chivitos, papas fritas, pizzas, panchos, milanesas.
Por outro lado, a vida cultural faz valer a pena passar dois ou três dias em Montevidéu. Na cinemateca estavam passando filmes tão diversos como o do nosso agente secreto do Wagner Moura como filmes italianos e suecos. Ao lado do museu Torres Garcia, motivo da minha vinda[2], a livraria italiana Feltrinelli. A primeira Feltrinelli na América Latina está em Montevidéu. Pode-se tomar um café e ler sem frescuras, sem medo. Compra o livro se quiser. No segundo piso está o café. Se você quiser ler o livro inteiro e ir embora ninguém te diz nada. Está em cartaz a peça Antígona, e a montagem é toda contextualizada nestes dias do Trump e da novela do Oriente Médio. O cosmopolitismo de Montevidéu, se por um lado nos nutre com porções de informação e cultura geral, por outro… aqui vai um enorme porém do tamanho de uma lauda.
O porém dos poréns reside no fato de que não se deve vir a Montevidéu procurar alegria, a alegria daqui é poeticamente… triste. Por mais que o tango esteja démodé e underground, inclusive nas duas capitais às margens do Rio da Prata, é possível sentir a natureza da sua tristeza nas caras uruguaias desconfiadas e ansiosas, que se leem mais do que o restante da América Latina, sucumbem num materialismo herdado de múltiplas tradições caracterizadas pela ausência da espiritualidade.
O próprio cristianismo destas bandas carece da alegria transcendental prometida pela boa nova do messias. E, aqui não vai nenhuma crítica ao estilo acinzentado dessa cultura, afinal sou descendente dela, sou uruguaio de acordo com a lei, pela via sanguínea. Quero apontar a possibilidade de estarmos vivendo uma transição pela via do recente processo migratório caribenho na cidade. Coexistirão o tango e a cumbia. Quem sabe a cumbia, a rumba e a salsa tenham a missão histórica de resgatar a alegria da milonga, perdida após a cristalização do tango no imaginário.
Segundo o meu autor de cabeceira:
“…el tango, yo creo que es la degeneración de la milonga (risos)...una degeneración sentimental de la milonga. La milonga tenía algo de valeroso, tenía alegria, tenía coraje. Todo se ha perdido en el tango… como…pero posiblemente …pero quizá inevitable que ocurriera eso (gagueja). O sea nuestro país parece que ha perdido la alegria y la valentía también. Entonces es natural que… (gagueja) que su música reflejara ese cambio.[3]” (Ver minuto 12:05 até 12:38 https://youtu.be/8Z9ngqrcmIY?list=PLubpc-4mz7u4exi0lIlSz1D_2LGZmBXv7)
Estou com Borges, não por eu ser borgeano, mas por ser platino como ele e por refletir sobre o contato regular que mantenho e nutro com a região onde nasci (a da fronteira). Ali não se escuta tango no rádio, se escuta milonga, ainda se pode tomar café, pegar um táxi ou comprar bizcochos y pan com alguma milonga tocando. Em Montevidéu jamais ouvi uma milonga, jamais, ni por equívoco.
Talvez, o único montevideano milongueiro que Montevidéu pariu tenha sido Alfredo Zitarrosa. Eu o vi brevemente, o vi ontem, quando passei pelo parque Rivera, quando me contaram sobre o espírito da chorona do parque Rivera. Havia uma exposição sobre Zitarrosa. Eu fiz questão de não olhar. Desviei o olhar não por não gostar da obra do Zitarrosa. Zitarrosa foi gigante, o suficiente como para fazer milhares terem suas letras e melodias milongueiras gravadas por décadas. Sou um desses milhares. O problema é que a milonga do Zitarrosa é densamente erudita e densamente triste. O maestro que me perdoe, mas essa minha etapa já passou, e Zitarrosa é como ouvir Montevidéu: erudição cinza, triste. Quando estou eufórico ouço Zitarrosa para quem sabe chegar num equilíbrio menos up. O extremo up também é perigoso.
Agradeço imensamente ao grande Zitarrosa por todas as provocações da sua trova que me colocaram para refletir e estudar, mas ainda prefiro e consigo ouvir a milonga de Tabaré Etcheverry, em especial a do Cuzco Rabón[4].
Talvez aquele cara do patinete elétrico seja um herege milongueiro e não sabe disso. A arquitetura do seu ato é a de um gaúcho da antiga Montevidéu que puxa a rédea do seu cavalo para ir tirar satisfação com algum caudilho que desde a sua carroça o xingou.
A milonga brilha por sua ausência. Brilha a melancolia cinza e platina for export.
