América Latina: caminhos da condição contrabandista

 Os analistas políticos apontam os fracassos da Casa Branca e de lideranças latino-americanas em acabar com o tráfico de drogas. 

Mas, se perguntar não ofende, tenho um par de perguntas a esses “eruditos” da instantaneidade do google / IA (1): 


pergunta 1: não seria o tráfico de drogas uma erva daninha que evolui sempre para o status de contrabando?


pergunta 2: não é a América Latina uma conformação que nasce do contrabando / pirataria / tráfico?


Parte dos fundadores do que se tornaria New York foi expulsa de Recife, os holandeses judeus de Recife. A Holanda não reconhecia a soberania da Espanha, então ocupou o litoral nordestino “ilegalmente”, e, assim, todos os produtos obtidos pela Holanda em nosso nordeste brasileiro eram, à luz do olhar espanhol (2), contrabando / pirataria / tráfico.


Claro que existe uma diferença incalculável entre traficar o açúcar do Brasil colonial e a cocaína que invade os banheiros — sempre ocupados seja em encontros familiares ou baladas. A questão é que o mercado pedia açúcar e agora pede e paga caro por diversos OUTROS produtos.

O pó branco amiúde é demandado pelos próprios círculos que publicamente o abominam. Já não estamos mais nos tempos das receitas de Freud. Concordo com a necessidade do fim desse tráfico que a tanta gente destrói e continuará destruindo.

Esse estranhamento / ignorância do nosso processo histórico só seria menos feio se tivéssemos outra classe de analistas políticos populares.


A América Latina mesmo antes de ter o sobrenome LATINA (3), a partir de 1492 tornou-se a região do contrabando por definição. Do Tratado de Tordesilhas à prisão de Nicolás Maduro, o brilho no horizonte foi pautado pelo tráfico, tudo foi contrabando, no meio disso tudo fomos paridos e ensaiando  novos caminhos. E creio que estamos indo bem no ensaio.


O nosso estranhamento cotidiano é diferente do estranhamento dos limitados analistas que nos bombardeiam com suas confusões mentais. Dois estranhamentos. Eu fico com o nosso estranhamento porque brota do cotidiano e conta muito da nossa nova condição fora da órbita do contrabando: se nos perturba o tráfico é porque ele já não faz parte do nosso ganha-pão, é, no máximo, um ladrão que nos rouba energia e preocupação no tema da criminalidade ou quando pensamos no amigo / parente viciado, ou alguma tia que comprou uma caneta de emagrecimento contrabandeada.

Contrabando e tráfico. Termos que se confundem. E não é para menos. O contrabando é menos escandaloso, mas não menos perigoso. No contrabando, em tese, vendemos algo ilegalmente, geralmente sonegando impostos. No tráfico se vende coisas proibidas. Lembra do tráfico de escravizados? Que ótimo que lembra. Ele mancha a nossa história desde a dita Idade Moderna. As pessoas diziam que era imoral traficar gente, só que não faziam cara feia quando recebiam manufaturas ou produtos diretamente obtidos pela mão de obra escrava. A mesma hipocrisia prossegue. A mesma história.


Com a eventual legalização das drogas sintéticas o tráfico de drogas poderá ser promovido a contrabando. Vejamos o caso uruguaio. Legalizaram a maconha. Agora, produzida em campos militares! Mas, o usuário de maconha estrangeiro que visitar o paraíso dos doidões, Punta del Diablo, só terá que achar alguém pra comprar. E pagar caro (4). E de quem comprar? Do contrabandista. Apenas o uruguaio pode comprar maconha, o turista não. O turista pode fumar, mas não comprar. Estranho, não?

A única ponte ou abismo entre o contrabando e o tráfico é a moral. Se o costume naturalizado pelo tráfico deixa menos rígidas as escalas de valores, entramos na legalização / contrabando.

Onde há legalização há também contrabando porque a variável poder aquisitivo se impõe. Em Punta del Diablo, que conheço bem, nem todos os usuários de maconha outsiders / turistas têm o mesmo padrão de bolso. O saldo na conta bancária diversifica a oferta, tanto no contrabando como no tráfico.

Caudilhos como Gumercindo Saraiva, o uruguaio que ameaçou a República brasileira (5) com o seu bando de contrabandistas chegando a cercar Curitiba, nos ensinou que a qualquer momento a nossa raiz histórica contrabandista consegue deixar os governos e regimes de plantão aterrorizados.

O que é o PCC senão a atualização dessa força telúrica? Não consigo ver o processo histórico brasileiro ou colombiano, argentino, chileno, paraguaio ou uruguaio, mexicano ou cubano sem essa condição clandestina que nos brinda o contrabando / tráfico.


E, como todo contrabandista / traficante não quer arriscar o pescoço se a recompensa não for boa, não poderia nos espantar que o PCC tenha se tornado tão ou mais poderoso do que muitas multinacionais.


Boa parte dos latino-americanos mais ricos de hoje descendem de contrabandistas / traficantes que se aventuraram nestas terras após cruzarem o Atlântico em nome do Rei e da "Santa Igreja".


Afinal, não foram os primeiros gaúchos contrabandistas de vacas para as Minas Gerais (6) errantes da pampa platina os genitores dos estancieiros que hoje são a base do tal agronegócio?

E, sobre os traficantes de escravos, onde estão HOJE os seus descendentes mesmo?

E, os escultores das costas dos santinhos do pau oco de Ouro Preto? (7)


A promessa do tráfico / contrabando brotou no Novo Mundo como metáfora de uma terra prometida na qual os sobreviventes não se limitarão a vencer na vida / sobreviver. Após vencerem na vida pegarão o Estado pelas guampas em seguida o castrarão e assarão seus culhões numa festa comilona repleta de influenciadores da cultura(8) e políticos.


  1. A analogia aqui me foi dada por Luis Fernando Veríssimo numa entrevista que ele deu. Chamou o fenômeno de “ERUDIÇÃO INSTANTÂNEA”... Salve o Veríssimo!

  2. Entre 1580 e 1640 ocorreu a União Ibérica. Portugal, sem sucessão no trono, ficou sob domínio espanhol, e como a Holanda estava em guerra com a Espanha, a colônia brasileira portuguesa passou a ser espanhola, portanto alvo natural holandês.

  3. O curioso é que foi um país da Europa Latina que disseminou esse nome composto América Latina. Por que não tentamos chamar a França, Espanha e Portugal de EUROPA LATINA? Não seria chic, principalmente com a França? Afinal, a França nos batizou assim.

  4. Pelos relatos de viajantes usuários, um cigarrinho em Punta del Diablo não fica por menos de 100 reais.

  5. Gumercindo, gaúcho da fronteira, radicado na minha cidade, Santa Vitória do Palmar. O cerco a Curitiba ocorreu no contexto da Revolução Federalista (1893-1895).

  6. Esse comércio foi um dos motores da nossa integração brasileira durante o período colonial.

  7. Para não pagar o imposto à Coroa, 20% do ouro, escondiam ouro dentro dos santos.

  8. Dos religiosos do século XVI que faziam coro sobre a tese católica dos negros "não terem alma" às Deolanes Bezerras. Jesuítas do passado e certos atuais influencers NATURALIZAM o TRAFICANTE.




Juan Manuel Blanes, Los dos caminos, Óleo sobre tela, 61 x 90 cm



AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas sobre notícias e temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história — o que, claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a instigar AQUI estranhamentoS. Historiador e professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando em Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: Instagram @darioandrespouso

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