Fenícios na FIFA...OU...Europeus com bandeiras africana e latino-americana ...OU... Copa 2026, um PESADELO DECOLONIAL?

 

A representação e o sentimento de nacionalidade podem muito bem ser exercidos em segundas ou terceiras gerações de famílias que migraram para outras nações. Quantos netos de italianos, russos ou franceses não reivindicam o seu passaporte europeu graças a avós que sequer conheceram? Isso não é novidade na história antiga ou contemporânea. Chama-se jus sanguinis (1). As diásporas, uma constante da história, embasam o princípio sanguíneo de pertencimento, sempre pensando na possibilidade do retorno dos filhos da terra que tiveram que fugir ou sair por diversos motivos econômicos. Os romanos e os judeus, lá na Idade Antiga, a Europa, a América e o resto do mundo, desde o século XIX, agarraram-se ao direito sanguíneo.


O que me motiva a escrever estas linhas não é a minha inclinação ao direito — esta, se existisse, seria incapaz de me fazer escrever. Tampouco minha dupla cidadania brasileiro-uruguaia (2). A razão é bem mais simples: gosto de futebol e ainda não assimilei totalmente o estranhamento que me causa marroquinos que não residem no Marrocos representarem terras marroquinas “com tanto orgulho”. De algum modo, encontrei, NA HISTÓRIA (assim, com maiúsculas), uma explicação que me tranquiliza até certo ponto: os marroquinos da Federação Real Marroquina de Futebol também não são marroquinos, mas também não são espanhóis ou franceses; são todos — jogadores, olheiros do futebol marroquino, todos, todos — fenícios, cartagineses.


Os reis do comércio antigo eram fenícios, e essa veia comercial sediada na região de Tiro (lá pras bandas do Líbano) prosseguiu em Cartago quando a primeira sede fenícia foi absorvida e conquistada pelos persas e por Alexandre. Em Cartago, a brasa fenícia incendiou o Mediterrâneo com os seus negócios, com o comércio. Chegaram, então, ao Marrocos atual. Ali, entre as franjas do litoral africano e europeu, Aníbal soube deixar a República Romana (3) de joelhos; encurralou Roma com elefantes, ambição e muita coragem. A expansão romana esbarrou na expansão cartaginesa (de estirpe e raiz fenícia). Tudo em nome do comércio, dos negócios, das riquezas.


Não consigo entender o fenômeno dessa seleção marroquina sem enxergar esse mecanismo do jus sanguinis (conjugado ao futebol) com a raiz fenícia, cartaginesa. Tudo na FIFA é grana, e a grana é capaz de fazer com que uma seleção genuinamente europeia — formada por jovens treinados, alimentados, estudados e enamorados na/pela Europa — represente terras que não conhece, a não ser pelas histórias e lendas contadas e cantadas por velhos em cuja presença esses jovens possivelmente não suportariam permanecer mais do que um par de horas.

Perguntaram aos jovens jogadores se eles se sentem mais europeus ou africanos?

Algo similar ocorre na seleção de Curaçao. Até aqui já seriam duas seleções europeias representando africanos e latino-americanos. Onde estão as vozes da decolonialidade? De férias com a Copa? É no mínimo um eurocentrismo peculiar. Desta vez os europeus portam as bandeiras das suas colônias. De todo modo resumo o motivo destas linhas: O Brasil jogou o seu primeiro jogo contra uma seleção europeia na prática porque foi constituída e treinada na Europa. Já a bandeira é outra discussão, uma discussão de papel, de passaporte, de fronteiras e nacionalidades e discussões sobre o que seria uma nação. Acrescento: ontem (4), os equatorianos empataram com Curaçao, um time europeu, de matriz holandesa, com bandeira CARIBENHA!!.

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  1. Direito de sangue.

  2. Oriunda da lei uruguaia 16.021. Por ser filho de uruguaio, reivindiquei a lei e a cédula de identidade em 2008, esta, que por sinal estava vencida, perdi na escrivaninha de um hotel em São Paulo quando limpava a minha carteira.

  3. Nos século III e II a.C. Roma ainda era República, não havia se tornado Império. 

  4. Fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, realizada no dia 20 de junho de 2026.

AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas sobre notícias e temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história — o que, claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a instigar AQUI estranhamentoS. Historiador e professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando em Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: Instagram @darioandrespouso

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