Nos rastros da calcinha pequeno- burguesa


A movimentada vida noturna europeia da virada do século XIX para o XX produziu de tudo, principalmente textos que seriam bases para as ciências, política, artes. No caso dos redutos dos artistas, um evento curioso deteve a minha atenção ao examinar os detalhes das pistas deixadas por aquele ambiente boêmio: Entre álcool, discussões estéticas, políticas e existenciais, e ainda contando com a presença da então glamourosa cocaína, eis que uma calcinha (1) vai pro chão, e mesmo sendo esta peça prontamente colocada em seu lugar correspondente, esse evento serve como o ponto que concentra toda uma crítica à moral burguesa.

A peça de Sternheim poderia ser a manifestação de uma contradição irônica que ronda a vida de certos autores, mas não é, pelo menos para este leitor brasileiro do século XXI. É um valioso paradoxo que um burguês tenha produzido uma obra tão genial ridicularizando a burguesia e o pensamento conhecido (à esquerda) como pequeno-burguês.

O burguês falando do burguês. Sternheim era burguês. Teria ele se envergonhado disso? Talvez não. Usou sua posição para falar da sua posição. Aposto que ele não perdia o sono por ser um burguês, mas perderia o sono se não falasse disso. E, claro que isso não está errado.

A calcinha é o foco do título, já o foco da trama não é a calcinha, nem tampouco a dona da calcinha.

O ideal burguês pôde ser dissecado pelo poder exercido sobre a proprietária da peça de roupa que protege a perseguida (2).


Sharon Stone, Instinto Selvagem, 1992. Fonte instinto selvagem cena pernas - Pesquisa Google

O foco é o dono da dona da calcinha e o ideal mesquinho e hipócrita de um pequeno-burguês que se faz de puritano e é capaz de alugar quartos para inquilinos excitados com a sua esposa (3).


Para quem se atrever a garimpar vestígios da ácida comédia de Sternheim intitulada calcinha, notará que ela não é tão divulgada, permanece como a sua referência no mundo real, escondida entre a pele e a peça de roupa escolhida por sua dona. Às vezes uma alça aparece por descuido ou insinuação libidinosa da proprietária. Daí o susto, a curiosidade, o eventual desejo dos e das testemunhas da aparição.


Para ilustrar essa faceta da condição de discrição dessa calcinha literária, existem registros da encenação da peça em São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente nos anos 1950 e 1970, mas nenhuma oferta de edições traduzidas e vendidas no Brasil atualmente. 


Uma peça difícil de ser encontrada / acessada. 


O próprio texto em alemão não está tão fácil de encontrar, mas graças ao projeto Gutenberg, consegui. Daí, as maravilhosas possibilidades da IA neste suporte nos empurram a ter no mínimo gratidão por estes dias em que podemos traduzir (com muita qualidade!) materiais como estes para em seguida meditar neles. Disponibilizo tanto o arquivo em alemão (aqui), como a versão em português (aqui) processada em meu notebook via Gemini.


Quem quiser examinar essa calcinha alemã pré-moderna e contemplar essa “peça” para além do texto, pode acessar o filme produzido em 1927, disponível no YouTube. Não precisa baixar… a peça está online (4).




(1) Uma anágua, calçola ou combinação (peças íntimas compridas de algodão ou linho que iam até os joelhos), o equivalente na época. Apesar de a maioria dos escassos materiais em português ou inglês sobre essa alemã traduzir com Calças, confio mais na tradução da maior autoridade no tema (considerando a sua obra História da Literatura Ocidental como a mais respeitada no gênero,: o austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux que traduz como calcinha.

(2) Por ser a nossa cultura constituída por tabus conservadores que dificultam ou proíbem a menção da XXXXXX, adotei no texto o regionalismo / expressão popular para a área coberta pela peça íntima feminina em questão. O mesmo poderia ter sido feito com uma tarja preta.


(3) Que lá pelas tantas começa a fantasiar com a possibilidade de meter os cornos no marido.

(4) Existe uma versão para a televisão alemã de 1985, mas não consegui acessar… ainda.

AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas sobre notícias e temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história — o que, claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a instigar AQUI estranhamentoS. Historiador e professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando em Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: Instagram @darioandrespouso

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