Onde estão os narradores?

Os velhos costumam protestar contra os novos costumes, e os jovens, uma que outra vez, ouvem e conseguem aproveitar a experiência.

Assistindo a alguns jogos na CazéTV e ouvindo os comentários dos narradores das partidas deste mundial de 2026, concluo que já cruzei a linha da juventude e ingresso na velhice geracional. Narram com um vocabulário de IA, como se soubessem do que falam (1). O que nos resta aos espectadores das gerações X e Y? Engolir a gororoba da geração Z? Alguém que me alcance, por gentileza, um antiácido geracional.


Resistem ainda alguns nichos, redutos, guetos das gerações que nos ensinaram a pensar e a imaginar. O rádio cumpria o papel de atiçar a imaginação, e uma partida de futebol podia muito bem ser apreciada via rádio, já que as partidas transmitidas pela TV (aberta apenas) eram restritas e a maioria das transmissões era pelo rádio mesmo. Imaginar! Um detalhe que não é pouca coisa. A locução baseava-se na observação atenta de testemunhas concentradas nos fatos reais e concretos que envolviam as disputas de bola.

Confiávamos neles. A olho nu impunham e debatiam com os seus inseparáveis comentaristas, fixados na beirada do campo, suas teses se foi ou se não foi impedimento, se a bola entrou toda ou se tocou apenas a parte externa do travessão.

Até um par de décadas atrás, quando o sujeito se metia a falar das últimas quatro Copas, era porque tinha vivido e se impregnado dos eventos; hoje, as estatísticas desses “jovens” (2) fluem arrogantemente por suas línguas, que deveriam se orgulhar mais dos clichês que lhes autorizam a assombrosa bagagem da leitura de orelhas de livros e tutoriais nos quais se educaram (ou mal-educaram). Cada um só pode dar o que tem e, como nessa questão sobressai a diarreia de estatísticas e curiosidades fornecidas pela IA, resistamos!

Os jogos do Brasil, assisto pelo SBT (3) com o som da Jovem Pan (4).

Outro problema plantado e colhido na última década é a camisa da seleção brasileira. Esteve quase proibido o amarelo-canarinho.


Eu não caio nessa. Visto a amarelinha, o amarelo SEM METÁFORAS, o amarelo de Aldyr Schlee, gaúcho da fronteira, vencedor do concurso que deu origem à camisa amarela... canarinho, nascido em Jaguarão, outra fronteira com o Uruguai próxima ao meu Chuí.

O criador da canarinho, como eu, era da fronteira e, como eu, também torcia pela CELESTE OLÍMPICA (gloriosa seleção uruguaia).




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(1) Locutor, falar, contar, narrar através dos sentidos plenamente presentes e focados no evento que se pretende transmitir.

(2) Alguns deles têm a minha idade ou próximo a isso, mas, como sua escala de valores é gelatinosa, adaptam-se a qualquer conjuntura, neste caso aos públicos Z e Alpha.

(3) Galvão Bueno na veia.

(4) Nilson César, ("o canhão do rádio", como diria Milton Neves) com o Flávio Prado, outro remanescente.





AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas sobre notícias e temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história — o que, claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a instigar AQUI estranhamentoS. Historiador e professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando em Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: Instagram @darioandrespouso

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