Renato Russo, um strani amore brega, patético e sublime.

Como visitarei a Itália daqui a alguns meses, retomei os estudos de italiano, abandonados anteriormente. Garimpando músicas, fui abrindo o leque de intérpretes até esbarrar no álbum Equilíbrio Distante. Fui, então, buscar informações sobre esse trabalho do Renato Russo. Abaixo seguem as linhas das reflexões sobre o encontro de Renato com o italiano.

Renato Russo antes de partir, queria expor seu lado brega, ou queria que o brega expusesse o seu amor, ou tornou possível um encontro entre o seu lado romântico com um repertório brega em italiano produzido para namorar.


Semanas após o lançamento do seu segundo e último trabalho solo, EM BUSCA DO EQUILÍBRIO, a repórter da Folha de São Paulo insistiu na palavra brega como delimitadora da entrevista (1). O Renato se saiu muito bem, pelo menos é o que senti nas linhas e entrelinhas da entrevista.

Trinta anos após aquela entrevista, percebo alguns elementos que o calor do momento não permitiu abordar, ou talvez o próprio Renato não permitiu que fosse abordado. Me atenho aqui apenas ao principal detalhe que brilhou por ausência, a proximidade da morte. Renato estava condenado a morrer porque os anos 90 condenaram quase todos os aidéticos à morte. A repórter da Folha batia na tecla do brega, mas não sabia do elementar detalhe: era um brega namorando com a morte. Quem é capaz de namorar com a morte, e de tirá-la para dançar sabendo que a cama já fora preparada pela foiçuda? Poucos, talvez o Fernando Peña (2) e meia dúzia mais.

Renato não divulgou a sua doença, por razões óbvias, astrológicas, antropológicas, históricas, estéticas e todas as representações das crenças do Manfredini Jr. Não cedeu à tentação de brilhar através da doença. Hoje sabemos que a ida do Renato para Milão comprar cds e fazer a sua imersão no país dos seus avós foi um impulso por cantar sozinho, do seu jeito, com as suas escolhas de repertório…cantar as letras tradutoras da sua alma ao mundo.


Rascunho para esta postagem.

O nome do álbum, EQUILÍBRIO DISTANTE. Os desenhos da capa são do seu filho, adotado (e, mesmo assim, filho). Desejo de raiz, imperfeição da forma, o PUH oriental manifestado possivelmente no último ou penúltimo recado ao mundo.

O momento da morte concentra infinitos símbolos, sinalizações, possibilidades de leituras dos caminhos concentrados pela vida no evento. Disso não duvido, ao contrário, essa realidade corrobora a máxima das linhas e entrelinhas de Hamlet…saber morrer.

Para nós historiadores e historiadores da arte, o contexto é um prato cheio que deve ser consumido todo e, com cautela, mas todo, todinho, utilizando os últimos pedacinhos de pão pra limpar o prato antes de beber o último gole de vinho. Os sinais deixados por Renato integram a constelação daquela doença que assustou duas gerações, a minha, e a dos meus pais. Trinta e dois dias após a morte de Renato, foi assinada a lei 9.313/96 (3).


Talvez tenha sido o derradeiro suspiro do fantasma da aids entre a juventude, o terror da possibilidade do contágio. Lauro Corona, Cazuza, o Fredy Mercury, Sandra Brea, Magic Johnson, nomes associados à aids pelo imaginário da minha geração. Dizem que até o próprio escritor argentino Julio Cortázar (4), foi levado pela SIDA. Representantes de todas as nuances das artes nos 4 cantos do planeta serviram de exemplo pra juventude daquela época não esquecer, sob nenhuma hipótese, a camisinha na carteira antes da balada.

Obviamente, o Renato não precisaria do SUS pra se tratar com o que havia de melhor na época. Ok. Mas, o problema é que o que havia de melhor até a sua morte era o AZT. A transição para o coquetel, que mantinha o AZT e acrescentava os inibidores de protease, fez as estatísticas de morte despencarem. E, essa transição se deu na prática a partir da lei mencionada acima que proporcionava de forma gratuita o coquetel retroviral para todos os infectados. Renato perdeu aquele benefício, não lhe restou outra coisa a não ser o de aprender a morrer.



Saber morrer é o detalhe que grita após 30 anos da entrevista dada à Fernanda da Escóssia. O roqueiro que não evitava o termo brega, mas o sublinhava, o reiterava, o argumentava sob o pretexto da nossa necessidade humana de namorar. Confessar a aids seria incentivar fofocas sobre os seus muitos namorados, jamais sobre o amor oscilando entre o sublime e o patético. Meses depois isso não foi possível, veio a melancolia final com A  Via Láctea, o canto feito à vida e à morte no round vencido por ela. 1995 e 1996, dois rounds, dois atos, duas fases, dois solstícios.  


Esse distanciamento de 3 décadas favorece não apenas uma maior compreensão da biografia de um artista do nosso cancioneiro popular. Podemos também entrar em esconderijos da nossa história cultural historiando os nossos medos como nação. Brega, patético e sublime. Brega porque ele admitiu e quis o brega. Sublime porque o amor sempre transcende:

Strani amori che fanno crescere / E sorridere tra le lacrime;




Patético, phatos, paixão, sofrimento, através do reconhecimento da sua finitude:

A Via Láctea





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(1) 18 de dezembro de 1995. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/12/18/ilustrada/18.html


(2) Ator, escritor e radialista uruguaio-argentino. El amor, por Fernando Peña

(3) 13 de novembro de 1996.


(4) Segundo a amiga de Cortázar, a escritora uruguaya Cristina Peri Rosso.





AUTOR

Me chamo Dario Pouso e publico aqui notas sobre notícias e temas encontrados nas fronteiras entre as artes e a história — o que, claro, inclui algo de política, educação, filosofiaS (assim, no plural) e DETALHES do cotidiano que me convidam a instigar AQUI estranhamentoS. Historiador e professor de história desde fevereiro de 2006. Mestre e Doutorando em Teoria e História da Arte. Contato e registros visuais: Instagram @darioandrespouso

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