Nossa PLENITUDE... segundo a melhor literatura
Vi um senhor bem sentado (1) na porta de um butecu (2). Transmitia segurança; a insegurança era toda dos observadores, dos clientes ou do pessoal que esperava o bus na parada em frente ao butecu.
O velho materializava a tal plenitude. Disso não duvido, e para duvidar disso você precisa transmitir essa coisa estranha que mistura serenidade, presença, e uma dose de alegria numa medida que não ultrapassa a sutileza da paz. Já vi esse velho anteriormente, várias vezes.
Na adolescência, em alguma cidade do interior, ou na vida adulta (antes e após deixar o álcool e o cigarro). Já o vi tanto em minha fase crua e incandescente quanto nesta atual, algo de cronista atento, com lápis e papel. O próprio Raul Seixas o viu, e ainda hoje todos cantam duvidando enquanto se esforçam pra crer (3).
Nos interessa mais que o velho a plenitude, e mais que a plenitude, as universais e acessíveis definições da plenitude.
Na cadeia podem surgir bons exemplos de plenitude, ou não? Vigiado 24 horas por dia, Paulo aguardava o seu julgamento pelo imperador. A morte era certa, e mesmo assim, as mais importantes cartas produzidas no Ocidente foram escritas pelo condenado Paulo: Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemon. Nem eu, nem você, e nem a soma de todos os nossos ídolos literários contemporâneos produzirão textos relativamente curtos com tamanho impacto na história.
A plenitude gera esse tipo de habilidade impossível aos transeuntes da vida, apressados em chegar primeiro aos locais mais perturbadores, blindados pelas suas existências tortas, nefastas, por vezes, pueris, e geradoras dos carmas mais bizarros e impossíveis. Não, claro que a pressa do pessoal em torno ao tranquilo velho do butecu não possibilita o reconhecimento de que o caminho está todo errado. Obviamente, o velho desperta alguma desconfiança, justamente por ser um ponto fora da curva, tratado então como um “estranho coitado”, porque o termo coitado, isolado nas mentes vãs dos transeuntes, não comporta o velho. Velho, estranho e coitado. Como tantos outros não tão velhos. A idade é um tema menor na questão da plenitude, mas é mais comum entre velhos. O essencial destas linhas é comentar algo da iniciação nessa arte, em que momento da vida se dá, e se é que você ou eu teremos oportunidade de vivenciar isso.
Segundo o maestro Dokushô Villalba, lá de Valência, o Ginkgo Biloba não pergunta, quando ainda na condição de semente, “ah…quando me tornarei um ginkgo biloba?”. Vai apenas, EXISTINDO, se desenvolvendo, tomando sol, consumindo chuva trazida por ventos, pressão atmosférica, tempo, acima de tudo…tempo. Um século, ou próximo a isso, para a vida presenciar a sua altura máxima, plenitude.
A plenitude seria isso, à luz do testemunho e do exemplo do ginkgo biloba: fazer, crescer segundo as nossas capacidades inatas mais recônditas em nossas almas. Se nas plantas é a genética, a semente, então, o que equivaleria em nossa condição material genético-cultural?
12 Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.
13 Tudo posso naquele que me fortalece.”
Enquanto no taoísmo o fortalecimento vem de permitir que o caminho e suas vicissitudes nos entreguem as condições para o desenvolvimento de nossas potencialidades (existentes quiçá antes mesmo de nosso nascimento), nas orientações de Paulo essa permissão viria de compreender o que de fato é bom, agradável e perfeito. Seria, em ambas as filosofias, um sentimento de PLENITUDE, assim com maiúsculas, que permitiria a realização máxima das nossas potencialidades nesta existência.
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(1) Com a mesma imponência de um monumento.
(2) O “correto” seria boteco, assim, bem sem gracinha, horrível e impronunciável dentro de um butecu. Se você for num butecu e referir-se a ele segundo a grafia correta, será com toda a razão motivo de piada. Melhor não ir.
(3) …”Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho sentado na calçada
… Com uma cuia de esmola e uma viola na mão…”
(4) Romanos, 12:2.
(5) Filipenses 4:11-13.
