Não sou nordestina, sou paulixxxta
ocorreu ontem, mais ou menos como relatado abaixo
Uma moça vende coxinhas, limpa o balcão e tem a chave Pix com o seu nome escrito num adesivo perto do local reservado ao que seria, há algumas décadas, uma caixa registradora. Não existem mais caixas registradoras como aquelas que eu vi no começo de 1990 (1) . Não existem mais. Já eram velhas quando eu as vi e toquei. Em 1990 — repito o ano —, em 1990, quando todos os rapazes entre 15 e 80 anos queriam entrar no táxi com a Angélica. (2)
O caixa da lancheria — ou seria salgadaria? — tem uma maquininha de passar cartão. Corrigindo: o caixa da salgadaria tem uma maquininha de aproximar cartão. Hoje em dia, além das ausências de máquinas registradoras em pequenos comércios, temos a ausência da fricção entre cartão e dispositivo de cobrança; podem clonar, como clonaram o da minha mãe em São Paulo quando ela me emprestou pra minha viagem (3). Apesar de utilizar um cartão de débito apenas, de vez em quando peço emprestado o de crédito, e apenas as mães emprestam cartões.
Além da ausência da máquina registradora do meu tempo, os sachês de ketchup e de maionese também brilharam pela ausência. Nessa questão me senti em casa. A moça dispunha em seu comércio de frascos . Aqueles frascos plásticos cilíndricos com a parte superior em formato de cone (4). Meu amigo psicanalista (que já conhecia a salgadaria e me convidou para ir com ele) fez uma linda análise sobre os sinais emitidos por ela, seus silêncios, olhares, jeito de limpar o balcão, modo como respondia às perguntas.
Nos acostumamos a comer lá praticamente todas as quintas-feiras, entre 9h50 e 10h10, aprox.
Ela comentou sobre sua infância, abandono, e o abandono do seu marido. Meu amigo disse que eles se complementam, mas que de algum modo eles estão buscando os pais um no outro, e que isso poderia ser problemático a longo prazo, e que isso era como um casal adotar um cachorro ao invés de ter um filho. Tem um nome técnico pra isso, esqueci, mas ele comentou e repetiu.
Ela mencionou algo sobre a mãe do marido: “o povo fala que era muito bonita, muito bonita mesmo… morreu bem jovem, dizem que de feitiço, é… fizeram feitiço pra ela”.
— Então, fulana, você veio da Paraíba há pouco tempo. Você não gosta de coentro, coisa estranha uma nordestina não gostar de coentro — disse meu amigo psicanalista.
— Eu sou paulixxta, não nasci na Paraíba, não. Só porque eu morei lá não significa que tenha nascido lá. (5)
De fato, ela não era paraibana, mesmo que a Paraíba lhe saia pelos poros, gestos, sotaque e olhar. Nasceu em São Paulo, e bem pequenininha o pai a enviou para a avó da pequena paulixxta. E lá se foi a menina de São Paulo para a Paraíba realizar o sonho da avó que sempre quixx ter uma menininha.
(1) Em 1990 eu tinha 8 anos. A máquina do comércio - Mercadinho Nossa Vila- onde trabalhavam meu pai e minha mãe era como esta aqui.
(4) Como este (5) O assunto sobra paladares veio a tona após ela deixar claro que não tem mostarda no comércio. Ela odeia mostarda. Essa foi a deixa para o meu amigo investigar as raízes culturais do seu paladar.