A Igrejinha da 308 Sul, tensões da Arte Latino-americana

 
Na quarta-feira passada (1) a jornalista Graça Ramos nos contou da sua pesquisa sobre o apagamento da obra e da memória do artista Alfredo Volpi na Igrejinha da 308 Sul de Brasília.


Fonte: Google Maps.

A Capela Nossa Senhora de Fátima apresenta-se como um exemplo da tensão entre o conservadorismo e o progressismo na América Latina. O apagamento de Volpi é tão sintomático quanto o apagamento dos murais de Torres-García em Barcelona: modernos censurados pelos agentes morais e políticos do seu tempo.

No final dos anos 1950, a Igreja Católica tratava de modo especial as imagens, símbolos e referências a Fátima. Afinal, estávamos em plena Guerra Fria, e Fátima teria advertido os comunistas sobre os seus “erros”.

Dois meses após a Revolução Russa, três pastorinhos portugueses teriam sido instrumentos para receber e contar ao mundo uma valiosa mensagem, simples — simples como a pintura de Volpi na Igrejinha: converter o coração e rezar pela paz.

Que os comunistas russos se convertessem? E ainda rezassem pela paz? Como assim? Apenas recentemente alguns redutos comunistas se inclinaram à espiritualidade (2). Comparados com os “camaradas” do século passado, os comunistas de hoje estão mais espiritualizados e buscando na meditação e na física quântica pajés modernos que lhes aqueçam o coração e lhes falem da continuidade da vida após… a morte.

Bom, na Igrejinha da 308 Sul, o pesadelo da Cúria, iniciado na Pampulha (3), repetia-se. Novamente um comunista ateu era o responsável por desenhar uma igreja católica financiada pelo Estado. Niemeyer novamente, de novo ele. 

O altar, ainda com a pintura de Volpi. Fonte: Arquivo Público do Distrito Federal.


Parecia um karma materializado na estética modernista rondando o imaginário católico nacional. Duas igrejas bastardas, a mineira mais bastarda do que a candanga, considerando que a Igreja Católica tardou 16 anos em reconhecer a sua filha franciscana - mineira- sonhada por alma comunista e profanadora.


O problema católico em Brasília teria começado pelas proporções do templo. Para os eclesiásticos católicos, Fátima (4) merecia algo maior do que uma capelinha estrangulada por duas quadras residenciais. 

A grana só deu para fazer uma capela. 


O ambiente interno da pequenina capela ganharia a decoração de outro comunista, Alfredo Volpi, convidado pelo camarada e ateu Oscar Niemeyer. Com pinturas ancoradas na simplicidade geométrica das formas, a decoração estava com os dias contados — ou melhor, anos contados.


Em algum momento do ano de 1962 lixaram as paredes, e a obra de Volpi esfarelou-se entre tinta e poeira por mãos de fiéis que permanecem no anonimato. Essa “jogada” obedecia ao xadrez jogado entre as peças que compunham o tabuleiro da transferência da capital.


O Estado necessitava do apoio da Igreja para a transferência da Capital do Rio para Brasília, a Igreja não desconhecia o próprio poder (5), e a Igreja tinha a Dona Sara; Dona Sara conhecia gente, gente que também conhecia Niemeyer, e Niemeyer tinha voz nos canteiros de obras e projetos àquela altura ainda indefinidos, ainda por fazer. Niemeyer deu então a Volpi o Itamaraty para que compusesse o afresco O Sonho de Dom Bosco.


Volpi? Apesar da compensação com o Itamaraty, não engoliu as paredes lixadas.


Esse apagamento bravamente resgatado pela Graça Ramos sublinha o silenciamento daquela Brasília em construção, e por que não pensar que revela, a partir das artes — e da arquitetura! —, um sintoma não apenas brasileiro, mas latino-americano: a tensão entre conservadores e vanguardistas na arena das artes.

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Notas:

(1) 14 de outubro de 2026, no auditório da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília (FAU-UnB). Trata-se de uma aula aberta a convite do professor Eduardo Pierrotti Rossetti. Fui como aluno do doutorado cursando disciplina optativa na arquitetura.

(2) Naqueles dias, os comunistas eram ateus, e pegava mal ser um comunista que acreditasse em Papai do Céu.

(3) Projetada por Niemeyer em Belo Horizonte, inaugurada em 1943. Fotografias da Igreja tiradas por mim durante minha ida a Belo Horizonte em maio de 2026:




(4) Nossa Senhora de Fátima.


(5)A transferência da capital não poderia recusar o “capital” católico.

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